• Pamella Amorim Liz

Choque Cultural: A realidade de ser expatriada


Quando a lua de mel chega ao fim

O processo de mudança e recomeço de vida em um novo país, por mais emocionante e inspirador que seja, pode tomar caminhos mais difíceis do que planejamos. Os meses iniciais em que nos sentimos turistas ou desbravadores de um mundo desconhecido, lentamente são substituídos por sentimentos ambíguos, dúvidas e inacabáveis tentativas de ajustamento. Quando chegamos, a vida é festa, é férias e descoberta. Você está feliz com as oportunidades a frente, com as facilidades, segurança e, honestamente, nem o clima incomoda. Mas após algum tempo, você vai entendendo que essa não é apenas uma viagem de férias.

A realidade de ser mulher expatriada

Você deixou tudo no Brasil e, sua vida, sua casa e rotina agora estão aqui. As contas e cartas da prefeitura começam a chegar, mas você não sabe se traduziu certo - já que nenhuma vem em Inglês - e, no fim, não sabe se recebe, se paga, como ou onde paga. As idas ao supermercado que eram um momento de distração e descoberta, tornam-se um martírio, pois aquela compra rápida de 10 minutos acaba se transformando em 40 minutos de você procurando algo nos corredores com arrumação sem lógica e fazendo tradução de rótulo!

A vida vira um limbo linguístico, pois você não sabe quase nada ou muito pouco de holandês, não consegue desenvolver o inglês com a fluência que gostaria, e também só pratica português com seu partner. Talvez por isso as interações se resumem a falar Sorry - seja para alguém que começa a falar em Holandês, ou Inglês, ou ainda por não se sentir confortável o suficiente para manter uma conversação e você pede desculpas antecipadas pelo Inglês mais ou menos.

Então você decide sair da inércia e ser produtiva como era antes, procurar um emprego e retomar sua independência. Mas não é simples ou fácil como parecia. O currículo possui outra estrutura, menor número de páginas, a tal da cover letter que precisa ser elaborada uma para cada vaga aplicada… E, sinceramente, um não no Brasil é uma coisa. Mas um não em um país no qual você está recomeçando tem um significado muito mais profundo, mais difícil e menos acolhedor.

Ficar em casa é bom, poder maratonar algumas séries no Netflix também é uma delícia, mas não todo dia! Chega uma hora que a rotina da casa cansa e finalmente você entende sua mãe quando ela dizia que serviço de casa não aparece. Provavelmente seu partner trabalha o dia todo e, por isso, você acaba ficando com algumas das principais tarefas da casa. É um trabalho igual, porque afinal de contas, você está lá cuidando e administrando a casa, mas ninguém vê isso. Parece que só se valoriza o trabalho em escritório e remunerado. Ninguém vê você resolvendo problemas diários da casa, pagando contas (ou descobrindo como fazer isso), lavando roupa, louça, fazendo as compras e o jantar. Para algumas mulheres, ainda tem um filho (ou filhos) na equação. Aos olhos dos outros, você só está em outro país aproveitando a vida feito dondoca.

A solidão em estar em outro país

Nessas horas de desesperança, negativas e dificuldades, laços afetivos nos ajudam imensamente. Mas esse é outro ponto delicado. Seus amigos estão no Brasil e por mais que exista um infinito de meios e redes sociais que facilitem a comunicação, não é a mesma coisa que poder se reunir para tomar um café ou vinho e reclamar da vida. Além do mais, fazer amizades aqui não é das tarefas mais fáceis. O holandês é mais fechado para amizades e, talvez por isso, acabamos atraindo dos nossos (já percebeu como brasileiro se atrai?!). Você demora a se abrir para uma nova amizade, os sentimentos nem sempre são recíprocos ou é apenas um coleguismo. Você vê seus amigos no Brasil saindo juntos, mas não está lá; seus novos amigos daqui saem, mas nem sempre te chamam - o que não tem problema, ninguém é obrigado a nada. O sentimento que fica porém, é o de exclusão, de que não te acham uma boa companhia ou no caso dos amigos do Brasil, que já te esqueceram.

Nessas horas entramos em um loop de arrependimento e esperança, que você se pergunta "O que estou fazendo aqui?" ou então diz para si mesma "Calma, isso vai passar.". Nós idealizamos uma vida perfeita ao fazer a mudança e isso é basicamente o que você quer para a sua vida, não como ela vai realmente ser. Não somos capazes de prever o futuro ou como será essa jornada. Dentro desse loop de emoções, existem quatro estágios que vivemos durante uma grande mudança: lua-de-mel, crise, recuperação e adaptação. A crise, que o texto aqui bem descreve, é uma sequência de altos e baixos - mas se ajustar à uma nova realidade é isso. Você precisa se reinventar e se adaptar ao local, às condições políticas e socioeconômicas, à cultura e às pessoas, às suas próprias expectativas que podem não ser atingidas, o quão determinada você está em ter sucesso e as ações que você toma para se ajustar ao novo ambiente.

Choque cultural e ajustamento não são um trabalho solitário, mas conjunto. E principalmente, precisamos nos dar um empurrão e fazer acontecer. Porque a felicidade está logo ali.

Pamella Amorim Liz

Escritora, mestre em história e cozinheira. Mora em Amsterdam há quase 3 anos e adora a vida entre tamancos, chuva e tulipas.

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